sexta-feira, 25 de setembro de 2009

PSICÓLOGA DIANA THEODORO FALA SOBRE AS DROGAS.VEJA:


Um dos fatores de vulnerabilidade mais intensos em relação ao consumo de drogas é o isolamento social. Ele ocorre quando o dependente químico é privado das relações com determinados membros de uma sociedade. O processo pode ocorrer tanto pelo internamento do indivíduo quanto pelo preconceito, que leva a sociedade a se afastar dos dependentes.

Diferente da exclusão praticada pela sociedade – que, geralmente, não aceita conviver com dependentes químicos – o isolamento em hospitais psiquiátricos ou clínicas de tratamento de dependentes químicos é feito mediante vontade do paciente ou, em casos extremos, forçado pela família e equipe médica. Entretanto, o tratamento dos dependentes busca, além da desintoxicação, a re-inclusão social do usuário, com a aproximação da família e trabalhos com psicólogos e outros especialistas.

Um exemplo de tratamento de reaproximação social é o praticado no Centro de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas (CAPS AD), um projeto de diretrizes nacionais que tem a intenção de substituir o hospital psiquiátrico. O serviço público municipal de atendimento oferece em seu espaço auxílio à saúde mental com uma perspectiva de inclusão social e reabilitação. Em Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba, médicos e especialistas atendem dependentes químicos da rede pública.

A psicóloga Diana Theodoro, coordenadora do CAPS AD de Piraquara, concedeu entrevista ao Comunicação e fala sobre o isolamento social de dependentes químicos e outras questões ligadas ao internamento.

Comunicação: Há uma marginalização dos usuários de drogas?

Diana Theodoro: Sim. Quando se fala na relação de abuso e dependência de drogas, o termo “viciado” já demonstra preconceito. Na atual sociedade, o uso de substâncias psicoativas é muito comum. O que existe é uma diferença na forma como as pessoas usam. O café, por exemplo, é uma substância psicoativa que se usado de maneira abusiva pode causar danos à saúde, tanto quanto as substâncias ilícitas que são tão descriminadas.

Comunicação: A reclusão de dependentes em clínicas especializadas e hospitais é uma forma de exclusão social? Que tipo de reações e comportamentos os dependentes podem apresentar em relação ao isolamento?

Diana Theodoro: O tratamento de pessoas que têm relação de dependência com substâncias psicoativas é feito, tradicionalmente, através do isolamento em hospital psiquiátrico. Porém, existe uma legislação desde 2001 no Brasil que tem a proposta de mudar essa maneira de assistência, direcionando o paciente aos serviços comunitários. Isso já demonstra que isolar uma pessoa para tratar não surte muito resultado, não melhora a qualidade de vida dela, e sim é uma forma de mantê-la afastada, excluí-la da sociedade. Com relação ao comportamento delas, pode-se dizer que é bem relativo, afinal, como uma pessoa reage quando está sofrendo uma discriminação? Algumas se deprimem, outras reagem com agressividade, varia bastante.

Comunicação: Quando é fundamental que um dependente de drogas ou álcool frequente espaços de recuperação psicológica?

Diana Theodoro: Se junto com a intoxicação há indícios de sofrimento mental, ele poderá ser tratado, num primeiro momento, nesse espaço integral, que ajudará somente na crise, mas que não resolverá esse problema por completo. Dependendo do quadro clínico do paciente, o passo mais importante é dar atenção para a desintoxicação. O internamento é necessário não tanto pela questão de sofrimento psíquico do dependente, mas sim pela condição do agravo clínico decorrente da intoxicação. Por isso, o ideal é que o dependente seja internado no hospital geral, que tem uma estrutura mais adequada para cuidar desses agravamentos.

Comunicação: O que mais chama atenção em relação aos internos durante o tratamento?

Diana Theodoro: O sofrimento a que eles acabam submetidos ao se separarem do espaço de vida deles. Qualquer instituição hospitalar tem a característica de um lugar despersonalizado, onde a pessoa é privada de sua liberdade, conforto e tranqüilidade. Ela é somente mais um paciente entre vários que estão lá e isso causa uma tristeza muito grande. Por isso, deve-se ter cautela com os aspectos particulares desses indivíduos. O tratamento é muito individualizado. Não tem como definir um padrão de tratamento e segui-lo de maneira muito fechada para todos os pacientes.

Comunicação: No tratamento, medidas para evitar o sofrimento dos dependentes químicos são importantes. O que se deve fazer para que o dependente não se sinta isolado, tanto em relação a atividades quanto ao trabalho psicológico?

Diana Theodoro: Basicamente é tentar fornecer, no início de tratamento, um acolhimento adequado para que esse usuário sinta segurança em seguir o tratamento. Além disso, é importante estar sempre atento ao processo de desintoxicação, pois dependendo do tipo de substância, o agravo clínico pode ser profundo. Em relação a atividades, uma das maneiras é organizando espaços coletivos que integrem o dependente na sociedade. Dentro do CAPS, por exemplo, existem espaços clínicos, grupos terapêuticos, mas também espaços destinados a promover essa ponte entre o usuário e a comunidade, como a Associação dos Usuários dos CAPS.

Comunicação: Colocar um paciente dentro de uma clínica ou hospital pode parecer forçado e contra o gosto do dependente. O internamento só ocorre mediante aceitação do paciente?

Diana Theodoro: Sim. Os únicos casos em que a legislação abre exceção são quando o dependente está correndo risco de vida, ou oferecendo risco de vida para outra pessoa. Nesses casos somente o juiz pode autorizar. Mas em geral, tratamentos forçados não costumam surtir efeitos. O ideal é que a vontade de parar venha do próprio dependente.

Comunicação: Para atingir o melhor resultado possível, como deve ser a interação entre psicólogo e paciente?

Diana Theodoro: O vínculo terapeuta-usuário é um fator de extrema importância no tratamento de dependência. O terapeuta deve conquistar a confiança do usuário, e fazer com que ele veja no psicólogo um auxiliar que está ali para trazer uma mudança positiva para sua vida. Outro conceito importante é o da escuta qualitativa: não basta estar de ouvidos abertos, é preciso filtrar e interpretar a escuta de modo a intervir no problema.

Comunicação: Sentimentos de rejeição, insegurança e culpa são comuns nesses indivíduos? Isso pode estar ligado às recaídas que os pacientes podem sofrer ao longo do tratamento?

Diana Theodoro: Não somente esses como vários outros sentimentos. Mudanças de humor e dificuldade de se relacionar devido ao isolamento também são comuns. A recaída faz parte do processo terapêutico de um dependente e tem os mais diversos motivos possíveis, desde questões orgânicas da relação de dependência, até questões mais subjetivas.

Comunicação: Você acredita que o apoio familiar, muitas vezes, pode ser decisivo?

Diana Theodoro: Não só o apoio da família como o de todos que estão a sua volta são muito importantes. Em geral, faz parte da proposta do hospital tentar trazer a família para o espaço de tratamento. Porém, isso às vezes pode parecer um pouco artificial e contraditório, afinal o paciente tem que estar perto da família, mas ao mesmo tempo foi isolado. É uma situação complicada. Por isso, a reintegração dos pacientes em recuperação é fundamental para que eles possam voltar a exercer os seus direitos à cidadania e assim resgatar a rede social comprometida no período de abuso das drogas.

Comunicação: E a ocorrência de famílias que abandonam dependentes de drogas é uma situação comum?

Diana Theodoro: Sim, bastante comum. O problema de uma dependência dentro de um núcleo familiar não deve ser analisado como sendo fruto de uma só pessoa. Muitas vezes, uma relação familiar que não funciona bem leva um individuo a procurar nas drogas uma saída. A partir daí, a família deposita a culpa de todos os problemas no usuário e se afasta dele, quando na verdade o que causou todo esse transtorno foi a relação conturbada entre eles.

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