sexta-feira, 25 de setembro de 2009

VEJA O DOUTOR LACERDA FALANDO SOBRE A COCAÍNA:


De acordo com os organizadores da Marcha da Maconha 2008, a proibição do evento pelo Ministério Público serviu a um propósito: reacender a discussão que envolve o uso e o plantio da maconha. Não que a polêmica algum dia tenha desaparecido. Discussões sobre o cânhamo (Planta do gênero Cannabis, o mesmo da maconha) industrial e até mesmo sobre possíveis usos medicinais da substância alimentam o assunto, gerando discussões e diversos posicionamentos. Serve de tema de redações de vestibular e gera divergências entre órgãos como a Abramd (Associação Brasileira Multidisciplinar dos Estudos sobre Drogas) e a ABP/APAL (Associação Brasileira de Psiquiatria – Associação de Psiquiatria da América Latina).

Segundo a Abramd, como houve pouquíssimas comprovações científicas sobre benefícios ou malefícios causados pela droga, é errado apresentar uma visão preconceituosa do assunto. “A punição para o usuário acaba sendo mais prejudicial do que o próprio uso” declara Roseli Boerngen Lacerda, professora da UFPR do Departamento de Farmacologia, coordenadora regional da Abramd e representante da Universidade junto ao Conead (Conselho Nacional Anti-Drogas).

A professora afirma que muitos profissionais da área se deixam levar por princípios éticos e morais, e não científicos, no momento de avaliar as conseqüências do uso da substância no corpo humano. Roseli, que diz reprovar a ação do Ministério Público como uma censura aos cidadãos, conversou com o Comunicação a respeito do progresso das pesquisas científicas relacionadas à maconha. Para ela, as pesquisas a respeito do tema ainda não são definitivas.

Comunicação: Sobre as propriedades medicinais da maconha, o que foi comprovado e o que é mito?

Roseli Lacerda: Basicamente, nada foi comprovado. Até mesmo quando se fala dos malefícios do uso, muitas coisas são mal-explicadas. Dizer que o uso da maconha causa paranóia, por exemplo, não tem embasamento científico nenhum. A maconha não é uma droga com o mesmo caráter da cocaína, por exemplo. Afirmar que maconha vicia também é outra impossibilidade científica – assim como afirmar que não vicia. Não temos como provar esses efeitos em humanos. Ratos de laboratório não nos contariam se estão sentindo o 'barato' e usar cobaias humanas, submetendo-as a possíveis efeitos colaterais terríveis, é antiético. Além disso, o uso da maconha é muito subjetivo. Não se pode saber se uma pessoa, que fumou maconha e agora apresenta sintomas de paranóia, não usava outra substância. Cada caso é um caso, generalizações são complicadas.

Comunicação: A maconha possui um caráter religioso para alguns grupos. O Santo Daime, um chá alucinógeno, também é consumido em rituais religiosos no Brasil – e não é proibido. Qual é sua opinião em relação a esse tipo de uso?

Lacerda: Na verdade, o uso da maconha e até mesmo do Daime, nessa forma, não devia chocar tanto. Drogas são presentes na religião desde tempos imemoriais. No ritual do Daime, por exemplo, o chá é distribuído com parcimônia para todos os participantes. As pessoas cuidam uma das outras. Podemos traçar um paralelo com a própria missa católica. O padre que está presidindo a cerimônia não toma vinho na frente de todos? Mas tudo isso depende da nossa cultura. Crescemos com nossos pais bebendo vinho no jantar, vamos à missa todo domingo. Ficamos tão acostumados que nos esquecemos de que o álcool também é uma droga – que, aliás, tem um índice de viciados maior do que o da própria maconha.

Comunicação: Os adeptos da legalização do plantio da maconha, para a utilização do cânhamo industrial, afirmam que a fibra não possui propriedades psicotrópicas. Isso é verdade?

Lacerda: Não é completamente errado afirmar isso. Todas as plantas do gênero cannabis, o mesmo da maconha, possuem propriedades psicotrópicas, mas em maior ou menor quantidade. Mas no caso do cânhamo industrial a quantidade de THC(tetrahidrocanabiol), componente da planta responsável pelos efeitos no cérebro, não é significativa. Para obter o ‘barato’ da maconha no cânhamo, a pessoa teria que fumar um enorme charuto – coisa completamente inviável. Então, o certo é dizer que o cânhamo tem, sim, propriedades psicotrópicas, mas é praticamente impossível sentir seus efeitos.

Comunicação: Então você diria que o consumo de drogas faz parte da cultura do ser humano?

Lacerda: Sim. Eu, pessoalmente, não fumo maconha. Mas gosto muito de uísque. Quando estou em casa, eu e meu marido bebemos moderadamente. Ajuda a relaxar. Tem seus efeitos negativos comprovados também, é uma droga, mas é cultural. Se você descobre que seu filho bebeu em uma festa, não ficará tão escandalizado quanto se descobrir que ele fumou maconha. Eu diria que, se proibissem o uso de qualquer tipo de droga existente atualmente, se extinguissem o álcool, a cocaína, a maconha… Se fizessem todas essas drogas desaparecerem, alguém descobriria uma nova substância. Nem que fosse um cigarro feito da capa do guarda-chuva preto.

Comunicação: E porque parece cultural a condenação do uso da maconha? A proibição da Marcha da Maconha pode ser tomada como exemplo.

Lacerda: Primeiro, devo dizer que achei absurda a proibição da marcha. Os manifestantes, ou pelo menos os organizadores da manifestação, jamais disseram que o evento seria alguma espécie de reunião para divulgar o uso da maconha como droga, ou até mesmo para fumar. Na verdade, o que aconteceu foi exatamente o contrário: eles ressaltaram que a manifestação foi organizada para levantar a discussão, para chamar a atenção das pessoas, para mobilizá-las. Ao proibir a marcha, o Ministério Público violou o direito de liberdade de expressão de vários cidadãos. A condenação do uso vem de forma natural por causa do próprio tráfico de drogas. Temos a imagem do traficante, criminoso, e a transferimos para o usuário, mesmo que ele use moderadamente, sem afetar outras pessoas.

Comunicação: Seria possível mudar essa opinião?

Lacerda: Não sei. Até mesmo órgãos, como a ABP/APAL (Associação Brasileira de Psiquiatria – Associação de Psiquiatria da América Latina), que deveriam ter uma visão científica do assunto, parecem inclinados a deixar de lado as provas para levar em conta uma versão moralista do assunto. Se a repressão vem dos que estão no poder e dos que detêm o conhecimento, será difícil uma mudança de opinião.

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